Quarta Palavra

O ensinamento de Jesus neste momento consistia em mostrar-me Seu Rosto e deixar-me ver que estava muito pálido, por trás desse banho de Sangue. Nesse momento o céu começou a escurecer, até ficar quase como se fosse noite, era como se estivesse acontecendo um eclipse.

As grandes nuvens escuras pressagiavam tempestade, dezenas de relâmpagos ziguezagueavam no horizonte e trovões muito fortes retumbavam, fazendo tremer a terra.

Imediatamente apareceram centenas de Anjos ao redor de toda a cena. Em um movimento conjunto, perfeitamente sincronizado, todos eles se prostraram para adorar Jesus, com as mãos juntas em silêncio, enquanto seus rostos brilhantes refletiam uma profunda tristeza. Ele tinha a língua e os lábios muito secos, pastosos. Novamente Sua voz assumiu um tom cansado, como se Lhe custasse falar-me, e me disse: “Contempla esta cena, Minha querida, e aprende que os Meus não podem passar sem cruz pela vida.”

“Vê e diz ao mundo o que estás aprendendo, e se quiserem calar-te, grita ainda mais forte, pela força do amor que te une a Mim, como unidos estão estes dois madeiros para formar um instrumento de salvação para o gênero humano.”

“Diz às almas consagradas, que a cruz que carregam não é somente para que adorne seu peito ou os identifique superficialmente Comigo. Primeiro devem revestir-se dela, aprender a ‘acomodar-se’ nela, em vez de fugir dela. Diz-lhes que não podem ambicionar o Tabor se não passaram antes pelo Gólgota; que aqui, na Cruz, é onde aprenderão a caridade, a humildade, a pobreza de espírito, a temperança em todos os atos de sua vida.”

“Asegura-lhes que Eu dou prova e testemunho de que, da experiência da Cruz, pode-se vencer facilmente o demônio. Contempla-Me: sou verdadeiro Homem, no qual a carne manifesta suas limitações, e verdadeiro Deus ao demonstrar-lhes a força implacável do Amor agápico.”

“Orai por aqueles que não conhecem sofrimentos, porque de certo, não estão entre os Meus… Observa estes dois condenados que Me ladeiam e medita sobre os modos pelos quais os homens carregam suas cruzes.”

“Uns a levam com raiva, com rancor, em meio de muito pesar. Quem carrega uma cruz em semelhantes circunstâncias e com esses sentimentos, de fato carrega uma cruz que não tem sentido, pois em lugar de aproximá-lo, afasta-o de Mim. Em geral essa é a cruz daqueles que se negam a compreender o sentido do sofrimento que adquire dimensões sobrenaturais. Essa é a cruz que tem o ladrão à Minha esquerda: é a cruz que será sempre pesada e que nunca poderá redimir.”

“Dimas, à Minha direita, aceita sua cruz com resignação, e até com dignidade, assumindo-a primeiro, porque não lhe resta mais remédio. Mas logo, quando Me reconhece e sabe que sou o Filho de Deus, aceita essa cruz reconhecendo-se pecador e pedindo que, através dela, a Misericórdia se lembre dele.”

“Finalmente, Me tens aqui, diante de ti. Abraçado a Minha Cruz redentora, para ensinar-vos a carregar a vossa. Convido-vos a ser corredentores Comigo, reparando vossos próprios pecados e os de todos os homens. Sabei que este modo de carregar a cruz se reflete em vossa conduta, quando diante de vós tendes contrariedades e dores e por meio deles vos aproximais de Mim, e tirais utilidade deles para testemunhar diante dos homens; quando abraçais vossa cruz e dela podeis sentir que a única coisa que desejais é fortaleza, porque a sede de almas vos abrasa.”

“Tenho sede…”

“Sim, Eu tinha a boca e a língua secas, estava desidratado e a febre Me queimava, por isso tomaram uma lança e com um trapo puseram em Meus lábios fel e vinagre, para troçarem ainda mais quando Minha boca ficasse irritada.”

“Quando disse ´tenho sede´, ainda tinha o olhar fixo em Minha Mãe, em João e um pouco além, na mulher pecadora que, diante de semelhante visão, nem sequer se sentia digna de aproximar-se para tocar-Me, compadecida. Tal era o sentimento de culpa que a embargava, que se limitava a choar olhando para Mim com impotência. Bendita Madalena, que permaneceste ao pé de Minha Cruz deixando que tuas lágrimas se mesclassem com o Sangue redentor que ia caindo na terra!”

“Por teu amor e tua dor, foste redimida e premiada com Minha primeira aparição diante dos homens. Por ter amado tanto, teus pecados foram lavados e o Pai quis premiar tua conversão e sacrifício, colocando-te nos Altares junto a Minha Mãe e a João, para que todos os que se acreditavam “justos e sábios” se inclinassem justamente diante da que condenavam, e assim se cumpra o Magnificat de Maria ao dizer que Deus “eleva os humildes” e que “cumula de bens os famintos”.

Então Jesus começou a me explicar os motivos e os sentimentos que o inundavam quando disse: “Tenho sede”, e tudo vai muito mais além do que se pode imaginar. Jesus não disse: “água”, que teria sido mais fácil e prático, se de verdade estivesse desejando beber. De fato, Ele nem sequer pensou em água, porque estava nos dizendo que tinha sede de nós, sede de almas, sede de que todos entendêssemos o valor infinito daquilo que estava acontecendo.

Quem já sentiu alguma vez sede de verdade... sede de ingerir líquido, sabe o que isso significa... Convido ao leitor que experimente alguma vez, com a prudência necessária e oferecendo ao Senhor...

Das necessidades humanas, quiçá seja a sede a mais angustiante, e muito mais ainda em situações de fadiga extrema... Penso que foi precisamente por isso que o Senhor disse isso... Quem tem sede não pode esperar para satisfazê-la, é uma ânsia que devora...

Jesus tinha sede de nos ver unidos em torno de Seus ensinamentos, tinha sede de ver uma Igreja unida e não dividida, “porque neste grupo há melhores cantos ou os pregadores falam mais bonito e em uma linguagem mais moderna que os outros...”; “porque estes trabalham com este padre e esses outros com aquele...”; “porque este grupo é muito de devoções, enquanto o outro se identifica mais com os pobres...”; “porque aqui não tenho o espaço que mereço e ali sim...”

Tinha sede de ver a todos os que proclamamos a Cristo como novo Salvador, unidos pelo amor e não separados por interesses mesquinhos, egoístas e materiais. Queria que aquelas Bem-aventuranças proclamadas com toda a força e doçura de Seu Coração um dia, como o único caminho de salvação para os homens, fizessem carne em nós. Tinha sede, enfim, de nos ver ajudando uns aos outros, homem a homem, comunidade a comunidade, paróquia a paróquia, apostolado a apostolado, não competindo nem nos destruindo como se fôssemos inimigos políticos que vão em busca de um botim.

Tinha sede de ver Seus Bispos e sacerdotes unindo, edificando, derramando Misericórdia, ajudando, apoiando, aconselhando, animando os pecadores leigos, que muitas vezes não sabemos por onde começar a trabalhar, porque nos colocam pesos que muitos deles não podem levantar, com todo o caminho que têm percorrido, supostamente tratando de crescer na Fé.

“Queria gritar ao homem que venha tal como é e beba de Minha sede, dessa corrente de dor que nascia do próprio Amor. Tinha sede de ver que todas as crianças tivessem um lar feliz, não um padre ou uma mãe alcoólatra. Tinha sede de ver crianças mentalmente sãs, sem traumas por ter visto violada sua intimidade e sua inocência. Tinha sede de ver a esses pequenos que amava tanto, com desejos de construir um mundo melhor, e conhecendo os valores evangélicos.”

Jesus tinha sede dos jovens que haveriam de Lhe entregar sua vida renunciando ao mundo, e daqueles que, estando no mundo, proclamariam a Boa Nova, no lugar que tivessem escolhido livremente.

Cristo tinha sede de mulhares que, tomando por exemplo a outras santas mulheres, edificássemos – começando pela Igreja doméstica – uma sociedade mais justa e com valores morais, ensinando a nossos filhos e aos alheios a ter Deus como princípio e fim de nossa passagem pela terra.

Jesus tinha sede de almas, de todas as almas pelas quais estava derramando até a última gota de Seu Sangue. Do alto da Cruz, via teus pecados e os meus e gritava à humanidade: “Tenho sede desta alma…” “Esta é a alma pela qual estou sofrendo tanto, tenho sede, tenho fome, tenho necessidade dela para poder aplacar este calor que Me causa a febre das feridas, que ao infeccionarem feriram Minha humanidade…”

“Tenho sede de oração, de paz nas famílias, nas comunidades, no mundo inteiro; sede de saber que todos responderão ao Meu chamado um dia; sede de almas generosas que se ofereçam como “pára-raios” da Justiça Divina, para salvar a outras almas…”

“Tenho sede de ti, Minha filha, de tua ajuda, de tua perseverança. Mas, cuidado com os lobos vestidos de ovelhas. Se vês que, quem trata de deter teu passo é um comerciante, tem muito cuidado, não aconteça que queira trocar a Cruz que te dei por uma corrupta e pretensa sabedoria.”

“Silenciosamente continua teu caminho, ainda que com muita cautela, abraçando com maior fervor o madeiro que pesa sobre teus ombros, e segue as marcas de Meu Sangue para que te dirijam sempre em direção a Mim… E se algum de teus verdugos começar a te atingir de frente, não cubras o rosto contra o insulto ou o golpe, nem trates de te defender… Oferece a ele também tuas costas, para que o mundo te reconheça como Minha por tuas feridas, porque te asseguro que aqueles que te atingirem serão os mesmos que atingiram a Mim. Alegra-te por estar entre os que pertencem a Jesus!”

Essa sede que tinha Jesus era Seu testamento, deixandotodos os Seus méritos para nós, os pecadores, para que em virtude deles nos salvássemos. Jesus teve sede até mesmo dos ateus e apóstatas que vinte séculos mais tarde diriam que o demônio e o inferno não existem; que a Eucaristia é somente um símbolo, uma comemoração; que Ele, sendo Deus, não sentiu as dores de Sua Paixão e que por isso não sofreu o que teria sofrido qualquer outro homem; que se exagera quando se pintam retratos de um Cristo “demasiadamente sofredor”; que o Cristo histórico é diferente do Cristo idealizado pela devoção popular; que Jesus já não pode falar aos homens porque em Sua passagem por esta terra já disse tudo...

E se não sabemos escutá-lO? Se tivermos perdido a capacidade de nos assombrarmos com os ensinamentos do Evangelho, de nos solidarziar com esse Cristo sofredor, e de aprender a amar a nossos irmãos?...

Jesus tinha sede de ver cristãos que se comprometessem a trabalhar para difundir o Reino dos Céus no coração dos homens. Não queria nossa cômoda mediocridade de “assistentes à Missa do domingo” e nossa “associação” a algum “Apostolado” como se se tratasse da filiação a um clube, para entabular melhores relações sociais e de passagem tratar de mitigar o peso de nossas consciências.

Cristo nos via em Sua eternidade e sentia sede, verdadeira e cruciante necessidade de nos sacudir, para despertarmos da cômoda letargia da tibieza espiritual em que cairíamos a maioria de nós, os supostos “bons católicos”.

Esses e outros milhares de motivos mais, que chegariam para preencher centenas de páginas, foram os que levaram Jesus a dizer: “Tenho sede”.