Quinta Palavra

Tinha o rosto muito pálido, todo o lado esquerdo deformado, com o olho quase completamente fechado pelo inchaço da bochecha e a pálpebra... - Tão brutal foi o golpe recebido que lhe tinha aberto o pômulo, que era como uma boca que deixava ver a carne do Filho de Deus!...

Jesus não abria os lábios, mas eu o escutava; escutava essas Palavras que, dirigidas ao Pai, eram uma mistura de amor, gratidão, resignação, impotência, dor e mansidão... Eu sentia que meu coração se partia de pena.

"Meu Pai, olha para mim!... Como um sol eclipsado por vontade própria, deixaste-Me beber o amargo cálice da gélida noite do espírito, e Te dou graças por isso!

Então dirigiu-se a mim, dizendo: "Nesta profunda dor que vai escurecendo Minha vista, até o ponto de que já não posso ver claramente aos seres que amo e que permanecem  ao pé de Minha agonia, sei que o Amor venceu, que vencerá para sempre".

"Vê, parece que não tinha sido suficiente ter passado por este mundo fazendo o bem a todos. Cheguei até o extremo do amor. Dei vida àquilo que havia pregado antes: "Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos". E eu dei a Minha também por meus inimigos, por aqueles que estavam Me crucificando".

"Precisamente por esse amor sem limites, em meio ao Meu insondável sofrimento, não perdi a confiança em Meu Pai, mas Me invadia uma felicidade imensa ao saber que estava cumprindo Sua Vontade e demonstarndo assim Meu Amor a Ele e aos homens".

“Meu Deus, meu Deus... Por que
Me abandonastes?...”

O Senhor me concedeu a imensa Graça de poder contemplar também esse momento. Aconteceu assim:

Eu estava em oração com os olhos fechados, diante do pequeno altar de meu quarto de trabalho, onde tenho um crucifixo, uma imagem da Virgem, e uma pequena caixa com as relíquias de alguns santos. Abri os olhos e à minha frente havia outra coisa: Não estava mais naquele lugar, mas via um céu escuro que relampagueava, com fortes trovões, e três homens crucificados.

A imagem se aproximou até quase tê-la a uma distância que parecia de dois metros de onde eu estava e tinha apenas Jesus agonizante diante de mim, tão perto que estendi a mão, mas ao constatar que não alcançava, compreendi que era outra visão.

Jesus arquejava, e pude ver que fazia esforço para respirar. Conheço bem por ter vivido isso tantas vezes... Seus olhos estavam fora de órbita, a boca tão seca que cada vez lhe era mais difícil articular as palavras.

Começou a soluçar e as lágrimas ensangüentadas corriam por sua face ferida, quando olhando para o céu, disse: "Eli, Eli... lama sabactani... - Meu Deus, Meu Deus... Por que Me abandonastes?"

Não pude suportar e rompi em um soluço, com um pranto que poucas vezes derramei em minha vida. Então escutei interiormente Sua voz:

"Filhinha, há muitas páginas escritas sobre estas palavras, que parecem dar a entender que senti somente o abandono de Meu Pai neste momento, como Homem. Mas isto vai mais além. Lembra-te que da Cruz Eu via todos os tempos vindouros e todos os homens e mulheres que sofreriam: uns porque fabricam as próprias cruzes, outros porque as impõem aos seus irmãos, que não podem carregá-las..."

"Nesse grito reclamei do abandono da Via Crucis de toda a humanidade. Senti em Minhas próprias chagas as infinitas chagas de todos os corpos que seriam torturados pela fome e pela miséria. Milhões de vozes se uniam à Minha para dizer: 'Meu Deus, meu Deus... Por que me abandonaste? Estou morrendo de fome, quando há pessoas que adoecem pela gula... Minha vida é um contínuo jejum forçado, enquanto há pessoas que não sabem em quê consiste o jejum e se dizem cristãos!'..."

Sentia as feridas que são conseqüência da injustiça e da crueldade que sofreriam os crucificados de todos os tempos no desterro, nos campos de refugiados; a dor das chagas dos encarcerados, repelidos e desprezados pela mesma sociedade que os levou a esse lugar com seu egoísmo... E essas vozes no silêmcio se uniam à Minha dizendo: 'Meu Deus, meu Deus... Por que me abandonastes? Não criastes fronteiras, não fizestes cárceres, não quisestes uma sociedade de poucos ricos e outra com multidões de marginalizados...'"

"Em Meus braços e pernas sentia a dor que sente um inválido e na cabeça, os espinhos Me ensinavam o que sofreriam os deficientes ou doentes mentais, a quem, muitas vezes, até os próprios familiares humilham com sua rejeição. O grito destes seres se unia ao Meu: 'Por que, Pai, permitis que riam de Mim, que me marginalizem, que me encerrem, se não tenho culpa de estar neste estado?... Não pensam que eles poderiam um dia estar como eu e sentir o mesmo?'"

"Sentia em Meu peito a dor que sente um ancião quando é esquecido pelos seus, pelos próprios e pelos estranhos; quando é abandonado em um asilo, à mercê de olhares e mãos alheios, porque suas mãos já não são capazes de trabalhar para dar de comer aos seus, ou porque as novas e elegantes amizades de seus filhos e netos não poderão entender as limitações de uma pessoa idosa".

"Já estão cansados de proibir-lhe que fale, para que não diga coisas 'impróprias', porque a sua memória já não funciona... Em alguns casos, 'piedosamente' se compadecem deles e os matam 'para que deixem de sofrer' e então suas vozes se uniam à Minha para dizer: 'Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes? Por que permitis que me joguem na rua aqueles a quem ensinei a andar um dia? Por que permitis que os outros, que passam ao meu lado, sintam asco de minha pobreza, de minhas vestimentas sujas e me humilhem, vangloriando-se de sua juventude e beleza? Por que este meu filho quer que me apliquem a 'Eutanásia' para encurtar meus dias e aumentar sua condenação no inferno?'"

"Sentia na pele o ardor de todos aqueles que seriam marginalizados por pertencer a determinada raça, e por isso seriam obrigados a colocar-se na mesma condição de um cachorro ao qual se limita a passagem a determinados setores da casa. Suas vozes, cheias de impotência e de dor clamariam junto à Minha: 'Meu Deus, meu Deus... Por que me abandonastes? Por que permitis que outro homem, talvez mais pecador que eu, talvez mais infiel, quiçá menos inteligente, com instintos mais parecidos aos das bestas que aos nossos, se rebaixe de sua condição de Homem e me rebaixe de minha condição de ser humano porque não tenho a pele como a dele?'"

"Sentia a angústia de todos aqueles homens e mulheres que no momento de sua morte veriam que 'haviam se enganado'; que sua vida foi uma contínua perda no pecado, nos prazeres e na negação de Deus e sua condenação seria iminente... Por uma eternidade de eternidades, em troca de ter vivido ao seu prazer durante 'x' anos! Oh dor!..."

"Mas também sentia a dor daqueles cristãos que no momento de sua morte veriam que estavam certos: que haviam crido, haviam se alimentado e vivido supostamente 'como bons cristãos', isto é, cumprindo muitas coisas, mas omitindo outras tantas, tais como levar esse seu conhecimento aos outros, pensar egoisticamente em salvar a si mesmo mas sem saber o que se passa com o vizinho, que vive sem saber nada de Deus. E a justiça é para ambos os grupos: para os que não quiseram conhecer Deus e para os que nada fizeram para expandir a fé, para serem portadores da esperança para os outros!"

"Sentia em cada centímetro de Meu Corpo a dor de cada criança assassinada no corpo de sua própria mãe. E sua inocência se unia ao Meu grito de impotência humana: 'Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes? Por que permitis que esta mulher, que poderia me ninar em seus braços para aquecer meu pequeno corpo me condene a não ver a luz terrena e se condene para não ver a Luz do Céu?"

"Assim, contemplando Minhas feridas e as feridas da humanidade, pensei em Judas e em todos os traidores e também em todos os que seriam traídos por seus amigos, vendidos por 30 moedas do inferno: por uma situação econômica melhor, em troca de maior poder, para deixar livre sua soberba; por inveja que só se pode aplacar buscando o desprestígio da pessoa invejada; pela ambição de possuir o que não se tem..."

"E então senti o grito daqueles que sentiriam o beijo do traidor em sua face, como uma baba malcheirosa, como senti o beijo daquele que um dia foi Meu querido irmão. Nesse momento gritei com todas as Minhas forças: 'Meu Deus, Meu Deus... Por que Me abandonastes?..."

"O atributo mais admirável no homem, com relação a outro homem, é a capacidade de se sentir 'amigo', a ponto de poder receber dele um conselho ou uma chamada de atenção com amor,s abendo que com amor também lhe seria dado; a ponto de poder corrigir o amigo e dizer-lhe: não por aí, irmão, porque irás enganar-te; a ponto de ambos se entenderem com um olhar, com um sorriso, e apoiar-se mutuamente com um aperto de mão que quer dizer: 'aqui estou, podes contar sempre comigo'."

"Amigo é aquele que se importa, que se priva de algo ou de muitas coisas para oferecê-las. Amigo é aquele que é capaz de privar-se de suas horas de descanso para trabalhar para ti. Amigo é aquele que pode em um momento renunciar à comodidade de sua casa para fazer com que te sintas cômodo, querido e apreciado. Amigo é aquele que deixa sua terra para te ajudar a salvar a tua. Amigo é aquele que te confia suas penas e alegrias, que é sempre transparente para ti e que sempre te levará a um crescimento na fé e no amor a Deus. Amigo é aquele que edifica, que une, que reúne... não o que destroça, destrói, derruba, para sentar-se em cima dos escombros. Amigo é aquele que dá a vida para te salvar... com Eu fiz."

"E porque sou amigo de todos os homens, cada uma das feridas que os Meus sofrem causa Minha compaixão e Me obriga a buscar o remédio apropriado. Quero dizer que tenho memória muito recente e muito viva de cada injustiça, de cada desprezo, de cada marginalização, de cada 'falso beijo', de cada humilhação.

"Não, eu não Me esqueço daqueles a quem vós, homens, esqueceis! Eu ouço aqueles a quem não ouvis, porque os ruídos de vossas almas vos impedem de ter a paz para escutar os outros e o que suas ações vos querem dizer, por irracionais que vos pareçam!"

"Eu coloco docemente em Meu Sagrado Coração aqueles que vós deixais jogados no caminho, aqueles a quem caluniais, aqueles a quem destroçais para ter aquilo que eles possuem: Bem-aventuranças!"