Sétima Palavra

Depois de refletir sobre esta palavra anterior de Jesus na Cruz, compreendo que a todos os cristãos a cruz nos seguirá como se fosse parte de nossa própria existência. Mas também percebo que nem todos somos capazes de despertar, de desenterrar o Cristo que permanece dormindo dentro de nós

Muitos vivemos chorando nossas pequenas ou grandes cruzes, pensando que o que nos coube viver é o mais triste, o mais doloroso, o que ninguém a não ser nós seria capaz de suportar... E o pior de tudo é que cremos que Deus se esqueceu de nós, que não nos escuta ou que está brabo conosco.

No entanto, não é assim. Jesus disse que o conhecimento que tem de nós, especialmente dos mais doloridos, dos mais sofridos, dos mais fracos, faz com que Ele ame, preferencialmente, ao mais pobre e ao que mais precisa dEle.

Se apenas estivéssemos conscientes de que os mais necessitados não são os indigentes, mas em geral os que têm tudo menos Deus, então nossos caminhos se dirigiriam a essas pessoas, qu ena verdade, sendo os mais ricos, muitas vezes são os mais pobres.

Não é tão difícil chegar até o indigente e convencê-lo de que confie em Deus, pois em geral essas pessoas têm o coração muito aberto para a Fé, e umas palavras, um simples gesto de amor, muitas vezes são suficientes para lhes mostrar o caminho para o Pai. O difícil é confencer o homem que, por ter tudo, ou por ter feito do pecado a razão de sua vida, está certo de não precisar de mais nada...

Este é o trabalho mais duro para os evangelizadores, quando têm que se enfrentar com a soberba, que é como lidar diretamente com o príncipe deste mundo, solapadamente escondido no interior de um pobre homem rico, mas necessitado do amor de Deus.

Quanto bem nos faria meditar de vez em quando sobre a Paixão de Jesus, sobre a dor da Santíssima Virgem que, junto a Ele, sofreu o martírio dos martírios, ao ver Seu Senhor e Seu Filho, crucificado pelos homens no Calvário...

E no entanto, foi capaz de nos deixar o melhor dos testemunhos, pois com Seu infinito Amor e Sua absoluta Obediênca ao Pai, suportou humildemente a crua dor de ver morrer em espantosa agonia o Seu Filho. Ainda mais: encarregou-se da humanidade como Mãe, quis - em outras palavras - projetar em nós o Amor por Seu Filho. Deveria sofrer como se fosse pecadora, junto a Seu Filho, sendo inocente como Ele, e tudo para que se cumprisse, também nEla, a Vontade do Pai.

Jesus disse que é por este amargo momento que se representam os dois Corações unidos (símbolo de nossa espiritualidade apostólica, assim como de muitas outras comunidades e apostolados), porque se uniram através da dor: no Gólgota foram um só Coração ferido, dois Corações que se atravessaram para se transformar em um. Um só Coração, no sentimento de dor pelo sofrimento, e um só Coração no sentimento de Amor, por obedecer ao Pai e por salvar o homem.

Agora me veio a necessidade de explicar aos leitores algo que, em princípio, parecia não ter muita importância, mas que no entanto encerra um ensinamento crucial do Senhor para todos nós.

Muitos de vós, queridos irmãos, tereis vos perguntado por que aparece Moisés na capa deste livro. Para entrar no tempo preciso primeiro esclarecer-vos que jamais sou eu quem põe o nome a um destes livros, e que para escolher a capa, fazemos muita oração, pedindo ao Senhor que nos assista na escolha.

Jesus me disse numa noite de sexta-feira:

"Aproximam-se as trevas para o mundo, mas quem vive abraçado à Minha Cruz, nada deve temer. Por isso o homem não deve se contentar em olhar uma imagem Minha ou ir a uma procissão de Sexta-feira Santa, mas deve procurar ter Meus próprios sentimentos: perdoar como Eu perdoei e pedir perdão como Eu fiz. Calar diante das infâmias, como calei diante de Pilatos e, no entanto, sentir um zelo corajoso para ser capaz de tirar com um chicote os mercadores do Templo de Deus. Viver para fazer a Vontade do Pai, como Eu vivi. Amar até dar a vida pelos outros. Permitir que triturem seu corpo e com alegria dar-se em alimento, para que outros se alimentem com esse pão."

Depois de minha oração eu estava meditando e pensava em Moisés. Sempre me marcou muito sua missão, sua vida... Logo se abriu diante de meus olhos esse espaço que muitas vezes se abre para me permitir contemplar uma cena, longe do lugar em que estou. Tinha diante de mim a cena da Transfiguração e ao vê-la me perguntei: Por que Moisés e Elias? E pensei que seria Elias pela força do "Profeta de fato", de que Jesus precisaria para enfrentar o que, como Homem, teria que viver.

Mas ao ver Moisés, meu limitado conhecimento não conseguia compreender o que ele fazia ali. Foi como se uma luz me iluminasse por dentro e, no que considero poucos minutos, passaram dezenas de imagens intercaladas diante de mim.

Moisés, saindo sozinho do Egito... e depois Jesus recebendo o batismo no Jordão.

Moisés descendo da Montanha, depois de ter recebido o encargo de tirar o povo de Deus do cativeiro do Faraó... e depois Jesus, escolhendo os doze apóstolos, ensinando, curando, perdoando, vivendo entre Seu povo.

Moisés tirando seu povo do Egito... e depois Jesus pregando no Monte das Bem-Aventuranças o chamado à conversão e anunciando o Reino de Deus.

Moisés passando pelo Mar Vermelho... e depois Jesus devolvendo a vista aos cegos, fazendo falar os mudos, caminhar os coxos; ressuscitando os mortos.

Moisés comendo com seu povo o maná que Deus lhes enviava do Céu para que não morressem de fome, enquanto caminhavam para a terra prometida... e depois Jesus com Seus discípulos, ceando pela última vez com eles e instituindo a Eucaristia, para permanecer conosco; entregando-nos Seu Corpo e Seu Sangue para nos alimentar e salvar da morte eterna.

Mas vi que Jesus nesse momento não estava sozinho com Seus Apóstolos. Logo aquele lugar se tornou imenso, abrangia tudo o que meus olhos podiam ver e junto deles, uns sentados em cadeiras de rodas ao lado dos Apóstolos e os outros de pé atrás de Jesus e Seus discípulos, centenas, milhares de sacerdotes, revestidos com uma túnica branca e estola de cor vermelha, com a mão direita estendida para o lugar em que Jesus elevava o pão, repetiam com o Senhor as palavras da Consagração.

A voz de Jesus me disse: "Cuidai de Meus irmãos, porque através deles permanecerei convosco até o fim dos séculos".

Então voltei a ver Moisés no Monte Sinai, descalço porque assim lhe tinha ordenado o Senhor, de joelhos, tremendo ao contemplar o dedo de Deus escrevendo os Dez Mandamentos para os homens... e então vi novamente Jesus no Horto do Getsêmani, de joelhos, vendo e assumindo todos os nossos pecados, contemplando o que lhe esperava sofrer por nós homens, tremendo e suando sangue.

Novamente voltou diante de meus olhos a Última Ceia, Jesus com Seus Apóstolos e todos os sacerdotes, repetindo as Palavras da Consagração. Jesus olhou para mim um momento e me disse: "Eu sou o Pão da Vida e estes - ergueu as duas mãos como querendo abarcar a todos - são os que Me dão aos homens como alimento de Vida Eterna."

Nesse momento todo meu corpo tremia diante da majestade do que estava presenciando e entendendo. Escondi meu rosto entre as mãos, chorando... e depois de um tempo, talvez minutos mas que me pareceram horas, levantei o rosto e voltei a ver o anterior:

Vi Moisés erguendo no alto um pau com uma serpente talhada, para curar com ela os que eram mordidos pelas víboras... e depois Jesus, levantado diante de mim, na Cruz, para curar a alma dos que seriam mordidos por satanás e envenenados com o pecado.

"Recorda o que te disse no início - repetiu-me o Senhor - que se aproximavam horas de trevas para a humanidade, que sacudirão as instituições e com elas as pessoas. Também Minha Igreja terá que atravessar esse caminho doloroso que já se iniciou, porque assim está escrito. 'O Pastor será ferido e se dispersarão as ovelhas...' Mas recordai que venci o mundo."

Outra vez contemplei a última Ceia diante de mim. Todos aqueles sacerdotes tinha o rosto transfigurado, com o mesmo rosto de Jesus. Então se fez a escuridão total diante de mim, e ouvi a voz do Senhor, muito triste, quando dizia: "Judas, o que tens que fazer, fá-lo já!..."

Voltou a imagem, mas nesse momento, junto com um dos discípulos, saíam muitos desses sacerdotes, atropelando-se, correndo, já não com o rosto brilhante e sereno de Jesus, mas com seus próprios rostos, cheios de angústia e dor.

De longe se ouviu um alarido de mil vozes juntas, como se corressem a um barranco e se despencassem. Assustada, olhei para os que estavam com o Senhor, pareciam não ter visto nem ouvido nada, tão submersos estavam em sua oração, no momento que viviam, que a paz do Mestre lhes dava um porte majestoso, como de príncipes.

Entendo que aqueles consagrados que permaneciam junto ao Senhor eram os que se manteriam fiéis à opção que tinham feito por Ele, e são os que entrarão nessa hierarquia divina, porque ganharam seu direito: porque o direito é fruto da fidelidade; a fidelidade é fruto da estreita união, da intimidade; a intimidade é fruto da doação e a doação é fruto do amor agápico que se dá sem pedir nada em troca, pelo simples fato de buscar a felicidade do ser amado.

Finalmente, esse amor é fruto do conhecimento dAquele a quem serás fiel pelo resto de teus dias, sem permitir que se apague o desejo de reproduzir em ti a doação perfeita dAquele a quem te entregaste.

Minhas meditações se detiveram de chofre quando ouvi o Senhor dar Seu último grito entre inspirações de ar, cada vez mais espaçadas:

“Pai... Em Tuas mãos
entrego Meu Espírito!...”

No livro "Providência Divina", editado há 6 meses, relatava a morte de minha mãe e a profunda evangelização que recebemos todos os que estivemos perto dela enquanto agonizava.

Para quem não o leu, comento que foi uma agonia feliz, tranqüila, em paz, confiada plenamente no Amor de Deus; foi a agonia de uma pessoa impaciente para ir e se encontrar com a Misericórdia que a estava esperando do outro lado dacama. Ela nos pedia orações e canções, enquanto repetia, com os grandes olhos azuis, muito abertos, o pedido de Jesus: "Pai, em Tuas mãos entrego meu espírito!"

Enquanto ela morria, eu pensava na morte de Jesus... Agora o Senhor permitia que eu, pobre pecadora, presenciasse aquele instante e revivesse assim o outro, unidas as duas circunstâncias pela Infinita Onipotência dAquele que tudo pode e no amor dAquele que é o próprio Amor. Poucos momentos de minha vida serão tão marcantes e tão difíceis de explicar...

No Gólgota, o céu estava quase negro, a terra inteira tremia e todas as pessoas tinham começado a correr, fugindo. Uns, gritando de medo por ver a própria natureza se sacudindo, outros chorando e implorando perdão, e repetindo que verdadeiramente Este Homem era o Filho de Deus.

"Volto ao Pai", disse-me Jesus, "e um dia compreenderão, aqueles maus irmãos que fizeram um emprego de sua vocação, o verdadeiro sentido de Minha predileção por eles, ao lhes conceder a graça de Me fazer presente através de suas mãos na Eucaristia..."

"Então já não usarão o Altar para proferir uma homilia que possa confundir em lugar de ajudar o homem, para fazer política, para justificar um salário ou simplesmente para 'cumprir com seu dever' quando já não puderem evitar, e o fazem olhando para o relógio para sair correndo a cumprir com suas outras 'obrigações'..."

"Esses terão que fazer uma parada em seu caminho para o abismo, e reconhecerão que seu amor por eles mesmos é maior que o amor e o desejo de serviço a Deus e ao homem; porque com sua atitude lhe tiram a confiança e desanimam aquele que decide ir - ao menos uma vez por semana - ao encontro Comigo..."

"A eles e a vós, digo de Minha Cruz: Não vos queixeis de que as seitas se vão enchendo de gente, sem vos perguntar se é uma conseqüência do vosso testemunho..."

Tornei a ouvir aquelas palavras que representavam o final e o princípio de tudo: "Pai, em Tuas mãos entrego Meu Espírito!" e a cabeça do Salvador da humanidade se recostou sobre Seu ombro e Seu peito, e assim permaneceu um momento antes de pender totalmente sobre o peito. Esse momento, que poderia ter sido interminável e que às vezes creio que viverá sempre perto de mim, estava absolutamente presente em meus olhos, em meus ouvidos, quando me disse:

"Tinha todo o Corpo destroçado, mas Minha alegria era tão grande, que da colina de Minha Paixão contemplei o Céu e exclamei que, tudo tendo sido cumprido perfeitamente, nas mãos do Pai amoroso entregava Meu Espírito."

"Esse Espírito, que foi revelado aos homens no dia de Meu Batismo no Jordão, retornaria ao Pai Comigo, para que novamente a Trindade estivesse Plena na Glória. E assim como se abriram os Cèus aquele dia para que a Luz irradiasse ao Amor da Terceira Pessoa, como diz o Evangelho, em forma de uma pomba, agora se rasgava o véu do Templo que cobria a Arca da Aliança, para sentenciar os que Me haviam condenado e aquilo sim os horrorizou, pela cultura e educação daquela gente."

"A missão do Verbo estava concluída, a tremenda batalha havia chegado a seu fim. Morria o Filho do Homem, entregue voluntariamente por Amor. Depositava-Me, com confiança, nas mãos de Meu Pai, pacificamente, docemente. Outro havia morrido horas antes enforcado, desesperado; como morrem os covardes, os traidores, os que não amam a Meu Pai e portanto não confiam no perdão."

Logo voltou a Luz, dissiparam-se as trevas e, ao ver minha surpresa, Jesus falou da Cruz.

"Esta Luz que vês chegaria em pouco tempo aos Meus Apóstolos, para iluminá-los e assisti-los através deste Meu Espírito que depositava nas mãos do Pai. Ele viria recordar-lhes tudo quanto de Mim escutaram e assistir-lhes para que esse conhecimento penetrasse tão profundamente neles que lhes permitisse, por Sua Força, adquirir toda a sabedoria e santidade necessárias para prolongar-Me neles: para continuar caminhando entre Vós, para continuar curando, para continuar abençoando, para continuar salvando..."

"Tudo isto teve que ser visto por testemunhas, para que se chegasse a compreender o valor real do sacrifício de um Homem que entrega voluntariamente sua vida em doação a Deus e aos outros homens."

O Senhor não me disse, mas compreendi que era esse mesmo Espírito que se derramaria depois sobre os sucessores dos Apóstolos; pois de alguma maneira estava se referindo aos sacerdotes e leigos comprometidos..

Depois Jesus continuou me falando: "Cumpri tudo, volto ao Pai, e vós, os que Me amais, sereis também perseguidos, caluniados, humilhados, maltratados... Mas não estais sozinhos, permaneço convosco e deixo convosco o que há de mais precioso em Minha Vida: Minha Mãe, que desde agora será vossa Mãe."

Quando Jesus terminou de dizer isto, vi que se aproxima um soldado e, tomando uma lança, sussurra algo que não chego a entender e, com um gesto de piedade, atravessa o lado do Senhor e cai uma quantidade de sangue e água, salpicando o rosto do soldado que cobre os olhos com a mão e cai por terra.

O peito do Redentor estava cheio de luz, com uma harmonia de matizes que não poderia descrever, sai desse lado aberto algo como água mas que é brilhante e depois sangue que se mistura a essa água. Vai abrindo sulcos na terra e por onde passa o sangue se levantam umas açucenas maravilhosamente brancas.

Desaparece a Cruz de Jesus, em seu lugar vejo agora uma enorme igreja, e nela vão entrando essas flores, como se deslizassem. Mas por outro lado também vão entrando muitíssimos jovens vestidos de túnica branca.

De repente me vejo dentro dessa igreja e contemplo: diante do Altar estão todas essas flores brancas, que agora se convertem em jovens mulheres, e do outro lado rapazes vestido com albas. Rapazes e moças estão prostrados em humilde oração e têm os braços em cruz. Entendo que são as mulheres e homens que estão sendo consagrados, entregando suas vidas a Deus...

Ouço um coro maravilhoso, como o que escutei alguma vez durante a Santa Missa, e vejo Jesus Ressuscitado, majestosamente vestido, como um Rei que no momento faz um sinal e de um a um os jovens vão se aproximando dEle, para que Ele mesmo unja suas mãos enquanto sorri, com o amor que algumas vezes observo nos olhos de um pai olhando para seus filhos.

Jesus olha para mim por uns segundos e depois diz, enquanto se dirige para o centro do Altar: "Através da Ordem Sacerdotal, com a força do Espírito Santo, todos os pecados dos homens serão perdoados e eles abrirão para vós as portas do Cèu... Mas sou um amante ciumento que exige deles todo o seu querer. Espero tudo de uma alma, de acordo com a vocação a que foi chamada um dia e ao convite que continuo fazendo diariamente em sua vida normal através das circunstâncias."

Nesse precioso instante, a visão de Moisés e Jesus voltou de maneira terrível. Procurarei ser o mais fiel possível ao descrevê-la. Vi Moisés, parado sobre um patamar do Monte Sinai, nas mãos duas pedras grandes com uns gráficos (suponho que são os Mandamentos). Abaixo estava o povo em um ruído terrível e umas cenas asquerosas. Mais pareciam bestas que humanos. O rosto do Profeta se tornou quase vermelho, congestionado, eu o vi cambalear e depois com força e raiva jogou as duas pedras sobre o povo. Foi como se cem cargas de dinamite caíssem sobre eles porque muita gente voava pelos ares, e muitos caíam dentro de uma grande cova no chão, gritando.

Depois vi Jesus, levantado sobre a Cruz e atrás dEle dois enormes anjos com o rosto muito brilhante, mas com uma expressão muito forte de desgosto. Um deles carregava umas "tábuas" (digamos assim), como as pedras que carregava Moisés, mas eram de carne. Se as juntassem formariam certamente um coração. Em uma delas estava escrito: "Amarás a Deus sobre todas as coisas" e na outra "Amarás a teu próximo como a ti mesmo". O ouro Anjo tinha nas duas mãos uma enorme Taça cheia de Sangue.

Quando os dois anjos estavam para jogar sobre o globo terrestre aquelas "tábuas de carne" e o Cálice com Sangue, ouviu-se uma voz varonil que dizia: "Alto!... Infundirei Minha Lei em seus corações, eles serão Meu povo e Eu serei seu Deus..."

Os dois anjos, ao escutarem a voz, ajoelharam-se baixando a cabeça e desapareceram de minha vista.

Em um instante pensei no paralelismo entre Moisés e Jesus. E me horrorizei de pensar no que teria acontecido se os Anjos lançassem aqueles dois mandamentos e o Cálice de Sangue sobre a terra... Penso que teríamos perecido todos, recebendo talvez um castigo que, com nossos pecados, parecemos estar pedindo a gritos.

Diante desta lembrança, não me move o sentimento a outra coisa do que a pedir a Deus misericórdia para o mundo.

Estou certa de que, quem ler este testemunho, compreenderá o momento que vivemos e concordará comigo que, se não nos ajoelharmos diante de Jesus, vivo no Santíssimo Sacramento do Altar, fazendo reparação e unindo nossas orações, aquela taça transbordará e se perderá grande parte da humanidade.

Então vi a Santíssima Virgem, sentada no chão, com Jesus recostado sobre um tecido e Sua cabeça no colo da Virgem. Ela o acariciava e beijava, derramando abundantes lágrimas.

Eu sou mãe, e quando alguma vez meus filhos tiveram sofrimentos e estiveram longe de mim, senti uma dor espiritual e física. Quando tento explicar, digo que me doem os peitos que alimentaram o filho que agora sofre ou tem problemas.

Contemplar este quadro e pensar no Coração de nossa Mãe me incita tanto respeito, que creio que não se pode menos do que prostrar-se em terra. Aí está a Mulher, sustentando a cabeça de Seu Filho morto, aceitando a dor que está lhe transpassando o Coração.

Quando uma pessoa querida morre, sabe-se que a dor fica. O que se foi não leva a dor.

Neste caso, desde o primeiro "Sim" da Virgem até este momento, a vida de ambos esteve tão intimamente unida, que um podia sofrer ou se alegrar com os sentimentos do outro.

Se a Igreja proclama que toda dor humana é redentora, que serve para a salvação das almas quando oferecida a Deus com amor, como pode alguém se indignar quando ouve dizer que Maria foi Corredentora ao pé da Cruz?

O laço que une a Mulher do Gênesis, cuja descendência esmagaria a cabeça da serpente, com a mulher vestida de sol do Apocalipse, não é precisamente o da "Corredenção", - o fato de que Ela havia participado ativamente, também como vítima, naquele santo sacrifício - que se perpetrou aos pés da Cruz?

Peço perdão pelo dito anteriomente se ofendo aos homens mas que o julgue nossa Mãe Igreja, que minha formação não é suficiente para esboçar sequer um critério; mas o amor reconhece o AMOR e para isso não se necessita sabedoria.

Voltou a cena do Calvário e a voz repetiu majestosamente: "...Infundirei Minha Lei em seus corações, eles serão Meu povo e Eu serei seu Deus...!"

Então apareceu dente de meus olhos novamente a grande igreja onde entravam não apenas os futuros sacerdotes e mulheres consagradas, mas um sem-fim de mulheres e homens, velhos, jovens e crianças...

Algo me obrigou a olhara para a cúpula do templo. Ali estava a Virgem Maria, majestosa, cobrindo com um manto azul claro toda a cena. Tinha um formoso sorriso, como uma mãe que abraça o seu bebê, protegendo-o com muitíssimo amor.

Dentro estava Jesus, revestido como na imagem de Cristo Rei, celebrando a Santa Missa. Concelebravam com Ele todos aqueles jovens que antes tinham sido ungidos. Senti uma alegria enorme no ccoração.

Jesus então me disse: "Diz a todos os Meus filhos que não é suficiente conhecer de memória as quinze estações da Via Crucis, mas vivê-la e recriá-la para que cada Santa Missa seja verdadeiramente o memorial de Minha Paixão."

"Diz a eles que da Cruz Me inclinei diante de cada um deles porque a força do amor lhes concedeu ser ´Alteri Christi´..." (outros Cristos)

Nesse momento vi um quarto com uma janela não muito grande, as paredes claras e Jesus, resplandecente, todo vestido de branco, que soprava sobre Seus Apóstolos e lhes dizia: "Recebei o Espírito Santo... Aqueles a quem perdoardes os pecados, eles lhes serão perdoados no Céu..."

Transcrevo a seguir as últimas palavras de Jesus, que acaba de me ditar para vós, enquanto termino de escrever este testemunho, no amanhecer da festa do Batismo de nosso Senhor.

"Querido irmão, este testemunho foi para ti. Para que consigas viver um tempo da Quaresma renovado, na profunda meditação da união que desejo ter contigo e através de ti, com Meu Povo."

"Não permitas que o racionalismo do mundo mude tuas brancas vestes por uma foice e um martelo. Tua biblioteca deve ser contemplar-Me na Cruz. Tuas armas e as de todo cristão devem ser a oração, a companhia de Minha Mãe, e o porto de salvação a Eucaristia."

"Mas cuida sempre que tua celebração seja como Aquela da Quinta-feira Santa; essa celebração que estremece os corações dos leigos. Recorda que Meu povo quer santidade em seus Pastores."