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Primeira Parte:
A morte, dor e esperança

capa Providência Divina“Deus, porém, lhe disse: ‘Insensato! Nesta noite ainda exigirão de ti a tua alma. E as coisas, que ajuntaste, de quem serão?’ Assim acontece ao homem que entesoura para si mesmo e não é rico para Deus.”
(Lc 12, 20-21)

 

Capítulo I
O amor bate à minha porta

No final do mês de maio, viajei para a cidade de Orange County, (Califórnia) nos Estados Unidos, para cumprir um compromisso em companhia de meu diretor espiritual e um casal de amigos muito queridos. Nesse período, minha mãe estava muito doente, e o Senhor me pediu que me ocupasse de preparar o luto para a família. Telefonei para casa, para saber o estado de saúde de minha mãe e me disseram que era estável, informando-me ainda que meu irmão Carlos chegaria para nos acompanhar nestes dias tão delicados para nós.

Embora soubesse que não era o mais importante, o fato de ter que procurar roupas pretas de luto para minha família foi uma experiência muito especial, pois tinha a ver com a morte de alguém a quem eu amava; neste caso, pensava em minha mãe. A maneira do Senhor me orientar me fazia entender que ia preparando meu espírito, meu estado de ânimo e o de minha família.

Dias antes, o Senhor nos havia pedido, ao meu diretor espiritual e a mim, que fizéssemos durante um mês uma hora diária de adoração noturna, em reparação por nossos pecados, pelos pecados de nossos familiares e dos do mundo inteiro.

No dia 6 de junho, dois dias antes de Pentecostes, o Senhor me ditou, como habitualmente faz, algumas passagens bíblicas para que as meditássemos. E acrescentou:

- Pede colaboração especial nos afazeres de casa para o dia de sábado; preciso de ti quase reclusa em comunhão Comigo.

Entendi que o Senhor queria que eu não me distraísse com outros assuntos, pois deveria estar disponível para Ele, para rezar e para esperar que me falasse. Disseram-me que meu irmão Carlos talvez não chegasse ainda porque tinha tido um problema renal.

No sábado, 7 de junho pela manhã, véspera de Pentecostes, disse o Senhor logo depois das orações de laudes:

- Quero vossa disponibilidade, não penseis em outros assuntos, conto convosco; deixai que os outros façam o que tiverem planejado. É necessário que saibas agir com calma e firmeza. O importante é o amor que se põe em tudo o que se faz...

Enquanto fazíamos nossas orações matutinas, meu diretor espiritual e eu recebemos a visita de uma pessoa, que se uniou a nós em orações. Mais tarde chegou meu filho com a tremenda e inesperada notícia de que meu irmão Carlos tinha falecido em meu país.

Corri diante do Santíssimo e me pus a chorar, perguntando ao Senhor por que o havia levado num momento em que ele não estava preparado, pois era isso o que eu pensava. Eu estava preocupada porque meu irmão, divorciado, havia contraído matrimônio em segundas núpcias e não podia comungar. Essa situação o fazia sofrer muito, já que tinha iniciado sua aproximação ao nosso apostolado e a uma vida de intensa oração.

Não podíamos dar esta notícia a minha mãe, pois ela estava no período terminal de sua doença. Decidimos que eu viajaria no dia seguinte para a Bolívia com meu filho. Voltei ao meu quarto para rezar por sua alma, pedi misericórdia para que sua alma não se perdesse, que minhas orações chegassem a tempo para interceder por sua salvação.

 

O consolo do Senhor

Inexplicavelmente, comecei a sentir uma profunda paz e um gozo interior tão imenso que até tinha vontade de cantar e rir. Assustei-me com minha reação e ped que o Senhor me orientasse sobre o que acontecia comigo.

Então Ele me disse: - Olha para Mim!

Contemplei o crucifixo ao lado de minha cama; este começou a se iluminar o Senhor continuou:

- Novamente te digo: Não Me vês com os braços abertos na cruz diante de ti?... Teu pai e teu irmão já estão junto de Mim... Comigo, porque Minha Misericórdia os cobriu. Esse é o teu gozo, ele já está salvo.

Mais tarde, durante o jantar, comentávamos a morte de meu irmão e o Senhor nos ditou uma passagem bíblica: Atos 7, 55-56, que diz assim: “Mas, cheio do Espírito Santo, Estêvão fitou o céu e viu a glória de Deus e Jesus de pé à direita de Deus: ‘Eis que vejo’, disse ele, ‘os céus abertos e o Filho do Homem, de pé, à direita de Deus’”.

Lendo essa passagem fiquei ainda mais reconfortada. Meu diretor espiritual celebrou a Missa por ele nessa noite. Eu tinha pedido ao Senhor para saber como estava a alma de meu irmão, que me permitisse sentir algo, e Ele, em Sua infinita Misericórdia, me permitiu ouvir interiormente a voz de meu irmão que me dizia que estava muito feliz. Tinha uma alegria e um entusiasmo inusitados

No dia seguinte, domingo, dia 8, preparando-me para viajar para seu enterro, arrumava minha bagagem quando começou a me doer o braço esquerdo e o peito. Falei com minha família na Bolívia e eles me aconselharam que não fosse, pois nesse estado minha saúde poderia piorar. Apesar disso, eu tinha o profundo desejo de estar a seu lado, já que ele tinha sido como meu filho, era seis anos mais novo que eu e me chamava de “mãezinha”.

Como usualmente faço, decidi colocar tudo nas mãos do Senhor, pedindo que Ele me guiasse.

Entrei no quarto de minha mãe para que me abençoasse antes de viajar, dizendo que tinha que ir para o exterior, mas ela se pôs a chorar como nunca e pediu que não viajasse, que ela me queria muito e precisava de mim. Entendi então que era Vontade do Senhor que eu não viajasse. Meu filho iria em meu nome, minha filha já estava tratando da situação e meu esposo preparava o lugar para o velório. A decisão me foi muito penosa, mais tive que optar por permanecer ao lado de minha mãe, para passar junto dela os que seriam seus últimos dias.

 

Capítulo II
Conversão, doce obséquio de Deus

Ficamos sabendo depois que, quando Carlos retornava ao meu país, logo após uma visita que nos fez no mês de janeiro, havia pedido a um sacerdote que o ouvisse em confissão, dizendo-lhe que compreendia que não podia receber a absolvição, mas que, no entanto, ele já estava expiando com muito arrependimento seus pecados; sabia que estava se confessando com Deus por meio do sacerdote, e que se acolhia em Sua infinita Misericórdia.

Pediu que o sacerdote rezasse por ele, porque esperava resolver logo os trâmites para que se declarasse nulo seu casamento. Ele ansiava por acudir formalmente à confissão e receber a esperada absolvição. Desejava receber a Sagrada Comunhão para se unir à experiência espiritual que todos vivíamos. Com sua conduta e conversão já havia começado a reparar os erros de sua vida passada.

Posteriormente soube que ele rezava o Rosário em família todos os dias. Ele fazia exercícios físicos devido ao seu problema cardíaco, e durante suas caminhadas completava o Rosário inteiro. Todos os domingos visitava um Santuário mariano com sua família, onde participava da Santa Missa. Depois da celebração, junto aos seus, permanecia ainda meia hora em adoração diante do Santíssimo Sacramento.

Lamentavelmente, sua morte sobreveio depois de uma enfermidade muito breve porém fulminante. Uma parada cardíaca encerrou sua vida. Ninguém havia suspeitado da gravidade de seu estado, pelo que se insistiu mais na assistência médica. Não houve tempo suficiente para buscar a ajuda espiritual. Em seus últimos momentos, sua esposa lhe pediu que rezasse e, derramando uma lágrima, meu irmão morreu.

 

Nunca estás sozinha

No dia 11 de junho eu estava muito triste, sobretudo porque não devia chorar, não podia para que minha mãe não notasse. Para mim era difícil assumir a morte de meu jovem irmão, e me sentia abandonada. Via meu outro irmão sofrer muito, eu devia ser forte...

Algo aconteceu, tive que guardar minha dor, como se tivesse deixado de lado uma coisa para assumir a morte iminente de minha mãe, pois eu entendia que vivia seus últimos dias. Dois meses antes, em outra viagem, eu me surpreendi assegurando a meus amigos próximos que o Senhor levaria minha mãe no dia do Sagrado Coração; eu tinha essa idéia, esse sentimento dentro de mim, como se escrito em minha carne.

Nessa noite de 11 de junho, depois de minha oração, o Senhor me ditou:

- Minha filha, em nenhum momento te abandonei. Quero que penses muitíssimo naquelas noites em que te permiti saborear um pouquinho do Paraíso Celeste.

Pensa na Comunhão dos Santos e deste modo descobrirás que o aparente adeus a teu querido irmão tem que se transformar em gozo para tua família; gozo que vos trará o consolo.

Lembra que os bem-aventurados refletem sobre vós sua luz beatífica, e tem a certeza de que por essa comunhão Eclesial, os que vos precederam partindo cheios de amor, vos ajudam com suas orações, estão próximos de vós para vos consolar nas penas, para vos fortalecer nas provações; para desarmar os obstáculos que encontrais em vosso caminho e ajudar-vos a superar as astutas armadilhas que costuma armar para vós nosso adversário comum.

Eu te preparei e te guiei para conduzires tua família no luto... Terias aceitado com a mesma passividade se Eu te dissesse que o luto seria por teu irmão mais novo? E, diante do Divino Querer, tu, pobre criatura, que terias feito?

 

A assistência de Maria, nossa Mãe

Jesus continou dizendo:

- Foi obra de Minha Mãe preparar aquela alma para que esteja disposta a receber Minha Misericórdia. Que esta partida, prematura na linguagem humana, vos ensine a viver com vossa lâmpada preparada, buscando a santidade diária; não aquela que se pode ver no homem, porque isso não tem valor diante de Meus olhos, pelo contrário Me entristece.

Entristece-Me ver que em muitos filhos se aparenta uma religiosidade que estão longe de viver, e que serve somente para proveito pessoal... Enganam as pessoas para obter poder e com isso se destacar; manipulam as coisas ao gosto e capricho próprios.

E o que pensa Jesus? Isso deveriam perguntar-se quando a soberba, o espírito de crítica hipócrita faz da alma sua presa.

Meu pequeno nada, oferece-me toda essa carga que parece acabar com tuas forças. Há tantas almas para salvar! Durante toda esta semana, tu e o Padre fareis vossa Hora de Adoração noturna desde a quinta-feira, em que se comemora Meu Sacerdócio Eterno, até a próxima quinta-feira...

Nela rezareis o Rosário e com vossa oração de reparação Me consolareis por tantos que rejeitam Meu Coração Eucarístico.

(...) Fortalecei-vos com a oração porque na hora de prestar contas diante de Minha Presença, estareis sozinhos e nus... com as mãos cheias ou vazias. (...) Sede generosos em vossa entrega pessoal, acima do egoísmo, do revanchismo, da impureza, da ingratidão. É decisão de cada um pertencer a este grupo ou ficar ruminando a frustração de ter falhado Comigo nas coisas que são verdadeiramente importantes para Mim.

É muito triste comprovar a cada instante que na terra o preceito do amor ao próximo é destroçado pelo egoísmo, pela inveja, pelo ódio, pela divisão e, deste modo, a dignidade das criaturas de Deus é triturada pela bigorna da escravidão interior, que vos faz vítimas das paixões desordenadas (...)

Segura fortemente a mão de Minha Mãe e concede-Lhe o teu trabalho de cada dia, com a segurança de que Meu Espírito fortalece, alenta e guia o teu.

Não crês que é Infinito o Meu Amor e que pode tudo preencher? Sorri e descansa no Meu Coração...

 

Capítulo III
Doença, sofrimento e alívio

Na noite do dia 21 minha mãe começou a ter dores muito fortes. Passamos a noite, com a enfermeira, sem descanso algum. Eu me sentia tremendamente abalada ao ver seus sofrimentos, pedia ao Senhor que me concedesse sofrer essas dores para aliviá-la, mas entendia que devia sofrê-los ela mesma, para purificar-se. A única coisa que ela repetia, junto com suas queixas pela dor, era a frase: “Minha Mãe, minha Mãe!”.

No domingo (22) ela sofria muito e se queixava constantemente. Estando na igreja, dirigi-me ao Senhor e rezando diante do crucifixo Lhe disse mais ou menos isto: “Senhor, da Cruz Vos apiedastes da dor de Vossa Mãe. Mas creio que não a vistes como eu vejo sofrer a minha, em um ‘ai!’ constante. Eu Vos suplico, Jesus... que ela viva segundo Vossa vontade, o tempo que quiserdes, mas que não tenha tanta dor. Apiedai-vos de seus sofrimentos porque cada dor dela é como uma espada que atravessa o meu coração”. (pedi-Lhe chorando).

O médico tinha lhe receitado um analgésico em gotas. Quando voltei para casa, dei a ela, mas sei que não foram as gotas mas o Senhor Quem lhe tirou a dor. Concedeu-me o que Lhe havia pedido em oração. As dores passaram quase imediatamente e completamente. Não voltou a queixar-se mais até morrer.

O próprio médico estava surpreso com o que acontecera, pois sabia que o medicamento não teria um efeito tão imediato, tão intenso e prolongado.

 

 

A preparação do espírito

Uns dez dias antes de sua morte, enquanto conversava com minha mãe, eu lhe propus levá-la para a praia para que descansasse uns dias. Mas nesse período ela começou a me dizer que “via” a tal ou qual pessoa (muitas que já haviam falecido). Como havia momentos em que perdia a lucidez devido a seu problema hepático, não considerávamos, até que ela disse ter visto meu irmão Carlos, que lhe havia contado que no Céu o mar era muito maior e mais lindo que na terra.

Nesse instante me convenci de que ela estava vendo pessoas que já não estavam neste mundo (porque ela não havia sido informada de que meu irmão havia falecido) e pensei que era bom que estas almas viesse prepará-la...

No entanto, nos últimos dias, ela também demonstrava que via pessoas que vinham atormentá-la, que a insultavam e que a maltratavam.

Meu irmão Eduardo lhe disse que eram pessoas que não queriam que ela fizesse bem sua comunhão e lhe sugeriu que as afastasse dizendo que ela era de Jesus. Constatamos que ela dormia muito pouco, como se lutando com alguém, despertava com pesadelos, dizia que afastássemos essas pessoas que a incomodavam.

Diante dessa situação decidimos que durante o dia todo manteríamos ligado o Canal de Madre Angélica para que ficasse pensando todo o tempo em assuntos relacionados ao Senhor e em oração. Durante a noite rezávamos o Rosário com ela em turnos, minha cunhada, meu irmão e eu.

Tentando compreender o porquê destes “incômodos”, lembrei-me que eu uma ocasião ela me havia contado que uma amiga a havia levado a um adivinho... Suspeitei que era algo que não havia dito em confissão. Pedi ao meu diretor espiritual que, como sacerdote, a ajudasse. Suponho que ela tenha confessado o fato, pois desde aquele instante todo incômodo desapareceu. Até seu semblante mudou, refletia uma serenidade e doçura notáveis, e os amigos que chegavam para visitá-la diziam que parecia outra pessoa.

Aqui devo fazer um parênteses para pedir a quem ler estas linhas, que se alguma vez estiveram envolvidos nessas coisas de adivinhação, tarô, magia ou bruxaria, que faça uma boa confissão, porque nunca nos damos conta daquilo com o que estivemos brincando e das conseqüências que pode trazer para nossa vida.

 

Jesus, presença sempre viva

No dia 23, durante minhas orações, o Senhor, sabendo que me sentia muito sozinha, falou e me disse:

- Minha querida, aqui estou, atendo ao teu chamado, mas nem por um instante te abandonei...

Estás aparentemente só, Eu estou contigo.

Pensa em Minha angústia no horto, Eu Me sentia só.

Tens medo? Eu também tive.

Precisas falar com alguém? Fala Comigo.

Precisas de uma mão que te acaricie? Aqui tem as Minhas.

Precisas de um ombro no qual chorar? Chora no Meu e Eu secarei tuas lágrimas com Meus beijos... Tuas lágrimas se confundirão com as Minhas. Não sou indiferente aos teus sofrimentos.

Queres companhia para rezar? Aqui tens os Santos e Meus Anjos... Oferece-me a paciência nesta vida de desterro e assim, cada vez que Eu te procurar, fiques livre de toda tristeza e possas gozar de uma grande paz interior.

Coloca tudo o que é teu somente no Meu Divino Querer. Deixa-te levar pelo meu Espírito Santo e agradece Suas generosas dádivas...

(Então, como é meu costume, perguntei ao Senhor se Ele estava em mim e eu Nele. Assim me respondeu:)

- Sim, tu em Mim e Eu em ti, mas lembra-te disso a todo momento. Agora reza o Salmo 121...

 

Primeiro, a vontade de Deus

No dia 25 eu estava muito esgotada pelo sofrimento interior, com medo de sofrer mais. Então, comecei a ouvir a voz da Virgem Maria:

- Não deveis temer o sofrimento, porque o temor evita fazer a Vontade Divina.

Antes de tudo, deveis aceitar a Vontade de Deus, tanto se vos envia acontecimentos felizes, como difíceis ou desagradáveis.

Deveis pedir por um Espírito de permanente oração para viver vossa existência com coragem, por amor ao Senhor, inclusive quando vos parece amarga e cheia de sofrimentos.

Infelizmente, há muitos filhos Meus que buscam uma coisa e outra e, quando as conseguem, descobrem que não lhes trouxeram a felicidade que esperavam...

Que tristeza sente Meu Coração materno quando se queixam das pessoas ao seu redor e do lugar em que lhes coube viver. Estes filhos, em qualquer circunstância e com quem for, sentirão o mesmo, porque a mudança deve vir de dentro de si mesmos.

Pensai que somente o domínio das faltas, o desapego ao “eu”, deverá levar-vos ao caminho da santidade. Não façais pacto com vossos erros mas atacai-os praticando esforçadamente a virtude oposta. Preocupai-vos com os outros e esquecei um pouco mais de vós mesmos. Detestai o pecado pelo que ele verdadeiramente é: ofensa a Deus e derrota pessoal.

Minha querida, refugia teus sofrimentos no regaço de tua Mãe celeste; Eu nunca te abandono, e peço por tua fortaleza. Pensa em São João Batista e, como ele, bendiz o ventre materno no qual o Altíssimo colocou Seu olhar cheio de Amor.

Paz, paz, paz... Pede ao Senhor que te conceda o dom da paz em todo instante.

Assim foi que, com muito amor, aproximei-me de minha mãe e, colocando minha mão sobre seu ventre lhe disse: “Mãezinha, bendito seja o teu ventre, porque aqui Deus pousou Seu olhar cheio de Amor para que nos trouxeste à vida”.

Beijando-me, ela respondeu: “Bendita és tu, amor de meu amor, porque foste mãe de teu pai e agora és mãe de tua mãe...” Creio que a herança mais bela que recebi de meus pais, de ambos, foi ouvir estas palavras deles antes de morrer.

Nessa noite, após minhas orações, ao me despedir de Jesus Lhe disse: “Faço um trato Convosco, Senhor, troco um pouquinho Vosso Coração pelo meu... Sem dúvida que saireis perdendo, mas, sabe por que Vos peço isso? Porque se me dais Vosso Coração, ireis me santificar e ao receberdes o meu, feio, pequeno e indigno, ao entrar em Vós, da mesma forma ireis santificá-lo...”

 

Capítulo IV
Dia do Sagrado Coração:
a hora do adeus

Nos primeiros minutos do dia 27, dia do Sagrado Coração de Jesus, por volta da meia-noite e dez comecei a rezar e veio o seguinte diálogo. Jesus me disse:

- Ama-Me!

- Em quem quereis que Vos ame hoje, Senhor?

- Naqueles que te magoam.

- Então terei que amar a muitos.

- Não tantos quantos os que Me magoam e Eu os amo.

Senti uma grande doçura, pensei em todas as pessoas que tinham me ferido e magoado. Senti somente amor, tinha todo o desejo de expressá-lo e dizer a todos eles. Seguramente esse imenso amor é o Amor que Jesus sente por todos nós. Disse ao Senhor:

- Queria ser a primeira pessoa a beijar hoje o Vosso Sagrado Coração.

- Deu meia-noite quando Meu Coração beijava o teu. Lembra durante este dia que Eu te sustenho.

De manhã, durante minha oração, disse ao Senhor que se eu tivesse que escolher um dia para que Ele levasse minha mãe, seria o dia do Sagrado Coração, ou seja, nesse dia. Depois Lhe disse algo assim: “se estivésseis em meu lugar, Vós também escolheríeis esse dia para que Vossa Mãe fosse ao céu. Hoje eu a entrego a Vós com todo meu amor”.

Às duas e quarenta e cinco da tarde, mais ou menos, minha mãe passou mal. Arrebentou uma veia no seu esôfago e começou sua agonia. Diferentemente dos dias anteriores, nesse dia ela amanheceu lúcida como para dizer tudo o que deveria. Corremos para ajudá-la e ela nos tranqüilizava. Pediu que rezássemos o Terço da Divina Misericórdia. Ela repetia as orações entre espasmos nos quais perdia muito sangue, mas estava completamente consciente... E assim começou a misturar-se a dor com a alegria, o medo com a confiança, a impotência com a esperança e o amor... em um clima de oração recolhida e cantos.

Meu diretor espiritual tinha que celebrar a Santa Missa em uma paróquia, então antes que saísse lhe pedi que ministrasse a ela mais uma vez a Unção dos Enfermos. Ela comungava todos os dias, pois estava se preparando para este momento importante. Pediu a bênção do sacerdote e lhe disse: “Padre, lembra-te sempre de mim e não te esqueças de mim em tuas orações...”

A experiência que vivemos em casa será inesquecível para todos os que estávamos com mamãe. Podíamos experimentar o amor de Deus vivo e presente em uma mulher tão debilitada e frágil.

Durante a doença, minha mãe foi atendida por um médico para quem só tenho palavras de gratidão, porque não apenas é um dos melhores especialistas que conhecemos, como vive sua fé católica e oferece um valioso testemunho de vida no exercício de sua profissão. Ele havia viajado para um Congresso, então chamamos o seu substituto, mas este lamentavelmente não teve a mesma atitude, pelo que tive que pedir ao Senhor a cada momento para que Ele nos guiasse.

Parece-me muito importante sugerir agora a todos que em circunstâncias difíceis procurem um médico católico praticante, sensível ao sofrimento da família que acompanha a um doente terminal. Os médicos deven compreender que os pacientes são seres humanos e que não precisam somente de uma receita, mas também de proximidade, de segurança, estima e confiança, o amor que uma profissão desse tipo requer.

Compreendendo que tinha chegado o fim, pensei que deveríamos despedi-la de acordo com os que vivem e morrem na graça de Deus. Voltamos a rezar, colocando uma música de louvores como fundo. Ela podia escutar alguns Salmos, cantos religiosos e o terço. Em meio ao seu sofrimento, parecia encantada com o que escutava.

Eu via a dor de meu irmão Eduardo e me doía muito mais porque é uma pessoa muito sensível. Em determinado momento, pedi a minha mãe sua bênção e ela abençoou a cada um de nós.

Em certo momento, por volta das seis e meia da tarde, ela disse que já tinha que ir com “eles” e fazia menção de levantar-se. Respondi a ela que esperasse um pouco, que se acalmasse. Ela me olhava com as pupilas dilatadas e me dizia “agora, agora!...” No começo não compreendi, mas depois de duas ou três vezes que ela fez assim, entendi que queria rezar a jaculatória do Terço da Misericórdia e dizia “Santo Deus, minha Mãe, minha Mãe”. Então a convidávamos a repetir: “Deus Santo, Deus Forte, Deus Imortal... tende piedade de nós”, “Jesus, Maria e José, salvai almas e salvai a minha alma”, “Senhor, em Tuas Mãos entrego o meu espírito”, e ela repetia várias vezes.

Dava a impressão de que sua alma queria sair do corpo, mas ela queria ir em corpo e alma jutnos, com um entusiasmo que verdadeiramente nos surpreendia.

Começou de novo a sangrar pelo nariz e pela boca. Nós a recostamos.

Em certo momento chamou a jovem que ajuda em casa, que havia cuidado dela por cerca de quatro anos, e lhe disse: “Doris, cuida de minha filha, de meus filhos”. Depois disse para mim “Agora serás a mãe de teus irmãos, como foi minha mãe”... No fim, despedindo-se, dirigiu algumas palavras para cada um.

 

Tenho que ir, deixem-me ir!

Ela abria muito os olhos, como se procurando alguma coisa, e repetia: “Pai, meu espírito...” e novamente: “já, já!”.

Compreendemos que queria dizer “Pai, em Tuas mãos entrego meu espírito”, nós a ajudamos e ela repetiu quatro vezes....

Depois disse: “não me detenham, tenho que ir, deixem-me ir”.

Tinha suas mãos muito frias entre as minhas, e lhe disse que fosse sem temores para os braços de Jesus, que era um dia maravilhoso, do Sagrado Coração, que todos nos despedíamos dela com alegria... Comecei a cantar “além do sol, tenho um lugar...” Ela se uniu ao meu canto, depois comecei a cantar uma canção de ninar e ela também me acompanhou. Enquanto isso, todos os demais permaneciam em oração ao redor dela, rezando o Santo Rosário.

Depois de uns momentos ela disse: “Não posso ir! Primeiro tenho que ver a Virgem...” Demos para ela o quadro de Nossa Senhora Auxiliadora e eu lhe disse que ali estava ela. Mas ela olhou em outra direção e retrucou: “Sim, já está aqui, qual é seu nome?... ” Minha cunhada Anita lhe perguntou: É Maria Auxiliadora? Disse que não. Anita lhe perguntou se era Nossa Senhora de Guadalupe. Respondeu: “Sim, é Ela, é esse Seu nome... Dêem lugar para a Mãezinha, dêem espaço... Santo Deus...! Minha Mãe...! Meu Pai, em Tuas mãos...!” e, levantando sua mão, caiu inconsciente, como para segurar a mão de alguém que não víamos. Durou menos de um minuto nesse estado e expirou...

Tanto sofrimento, especialmente nos últimos meses, havia acabado com suas forças. Creio que não podíamos esperar morte mais santa e mais serena.

Seu velório foi tão humilde quanto ela era. Não quisemos que a pusessem em um caixão, nós a deitamos em sua cama, alugada de hospital. Isso me levou a meditar mais uma vez o quão vão é o apego às coisas materiais, porque na hora que se vai, em verdade não se tem nada.

Nós a vestimos com o vestido branco que uns dias antes ela havia pedido insistentemente que aprontassem, e chegou o pessoal da funerária para preparar seu corpo. Pedi somente um crucifixo com duas luzes internas e nada de cordões, nem adornos que, de tão chamativos, destoam do luto e dos sentimentos da família.

Rodeava o seu corpo inerte somente a parte de minha família que vive nesta cidade, e o grupo mais próximo de nosso Apostolado, uma amiga muito querida que chegou do México para acompanhar meu irmão ao crematório, Analupe, e eu.

Em meio a toda essa dor, demos graças ao Senhor pelas pessoas a quem minha mãe queria muito, como David Lago, que se encarregou de tudo como se fosse mais um filho, o Dr. William Rosado, que, deixando de lado compromissos familiares, liderou a parte dos trâmites médicos. Miguel, Cecilia, Pepe... E o resto do grupo, cada um com sua cota de afeto e solidariedade.

O sacerdote que nos dirige celebrou a Missa de Corpo Presente no quarto, junto à cama em que mamãe parecia adormecida.

Mas o Senhor maravilhoso, quis nos dar algo mais para ela, como um cartão de condolências enviado pelo Céu: as irmãs Dominicanas, nossas tão queridas amigas, apareceram em casa para cantar na Santa Missa. Verdadeiramente parecia que estávamos em um lugar muito distante da dor e da terra; em certo momento nos pareceu mesmo escutar coros de anjos.

Nós a velamos a noite toda, ela com o rostinho descoberto. Chegou a nos acompanhar por umas horas um sacerdote a quem minha mãe especialmente apreciou muito, e que generosamente ofereceu sua igreja para celebrar a Missa e depositar suas cinzas.

Quanto amor das pessoas próximas a nós! Especialmente de uma jovem a quem quero como se fosse minha filha, e que permaneceu junto a mim nas 24 horas seguintes: Martha, que Deus te pague por tua companhia.

Houve lágrimas sim, mas não um pranto desesperado. Estivemos em oração por toda a noite. No dia seguinte, à uma da tarde ela foi levada ao Crematório. Eu havia telefonado a um Arcebispo para que me orientasse sobre essas coisas, pois em meu país não se costuma tomar essa medida e sua resposta me deixou tranqüila a respeito.

Quando mamãe deixava a casa, eu me dirigi ao Oratório para rezar o Santo Rosário com meu diretor espiritual (bendito homem que o Senhor colocou para nos fortalecer e salvar a minha mãezinha). Eu sabia que somente a oração poderia me oferecer a paz esperada. Os membros do Apostolado acompanharam o corpo enquanto cantavam à Virgem: “Oh vem conosco vem caminhar, Santa Maria, vem…”

Mais tarde, a Santa Missa foi celebrada em um clima de profundo gozo espiritual e paz, no Santuário da Divina Misericórdia. Ali, na Cripta, descansam os restos daquela mulher que confiou tanto na Misericórdia de Deus.

 

Capítulo V
Sua herança: Caridade, humildade, coragem

Dela só ficou o amor que nos deixou, sua profunda caridade para com o próximo, a admirável humildade que reconhecia nela quem a conheceu, sua coragem exemplar e o desejo de expiação por nossas culpas, para chegar mais purificada aos braços do Senhor...

Penso sorrindo: que surpresa ela terá tido ao ver que dois filhos a despediam e o mais novo a esperava lá!... Não deixo de agradecer ao Senhor que esteve em cada detalhe, e esse Coração maravilhoso de nossa Mãe do céu, que perfumou toda a minha casa com um perfume de flores desde o momento em que começou sua agonia.

 

O espírito voa para Deus

Por volta das 9 horas da noite, eu rezava diante do quadro do Coração de Jesus. De repente, este começou a encher-se de luz. O Coração começou a crescer até alcançar um tamanho bem grande, de tal modo que diante de mim havia somente uma luz dourada e mais nada, tudo o mais havia desaparecido.

No meio dessa luz vi uma mulher de costas, vestida com um traje branco comprido, que parecia feito de gaze. Dava-me a impressão de vê-la voando, mas erguida, como se correndo, porém sem mover os pés. O cabelo comprido lhe chegava até o meio das costas, castanho, bastante ondulado, salpicado com flores brancas como amor-perfeito, eram lindas flores naturais.

Atrás dela iam, em duas filas, pessoas vestidas com túnicas de tom pastel: azul celeste, rosa, verde... Pouco olhei para elas.

Logo pensei que a mulher podia ser minha mãe, mas estava jovem, e me lembrei que nunca a vi com o cabelo tão comprido... Por uma fração de segundos, ela se voltou para me olhar e pude reconhecê-la! Com um belo sorriso, mas jovem, muito jovem, enquanto prosseguia seu vôo para essa enorme Luz, que é certamente onde se encontra o Trono de Deus.

Essa visão mitigou minha dor e senti uma grande paz; rodeava-me aquele silêncio que senti certa vez quando um sacerdote, depois de me impor as mãos, ajudou-me a conhecer aquele estado especial conhecido como “repouso no Espírito”.

Devo comentar que durante a celebração da Santa Missa, com o corpo presente de minha mãe, quando o sacerdote rezava o responso e dizia: “Que os anjos te levem para o céu; que os mártires te acolham à tua chegada; e te introduzam na cidade santa...”, Jesus me falou:

- Foi isso o que viste... – disse-me.

Chorei de alegria, agradecida ao meu Senhor por cada uma de suas delicadezas nesses momentos de tanta dor. Obrigada, Senhor, porque cuidas de cada detalhe para me demonstrar Teu infinito Amor!

 

Dor e misericórdia

No dia 29 o Senhor me disse:

- O ouro se prova no ardente crisol. Tudo o que estais vivendo é necessário para o crescimento... Eu te amo muito, crê nisso, e ama-Me mais. Embora creias que não podes amar mais, continua exercitando-te nisso, o amor é como um recipiente de borracha que se dilata, com a única diferença de que o recipiente não arrebenta mas se afina até converter-se em material nobre.

Mais tarde prosseguiu:

- Meu desejo é que toda alma seja santa para chegar até Mim no momento de sua morte, e permanecer no Reino que o Pai lhe tem preparado desde sempre. No entanto, desejo purificar essa alma ainda na terra, para que, na medida do possível, não purgue o que lhe faltou limpar em vida. Por isso, quando uma pessoa está bem disposta e deseja Me conhecer, amar-Me, dar-Me a conhecer e purificar-se na terra, Eu faço Meu trabalho de oleiro e modelo esse barro algumas vezes acrescentando algo mais que água para afinar a massa; outras vezes, batendo ou apertando a massa para amaciá-la e, quando está lisa, Eu a cozinho no forno ardente das virtudes, para que essa obra fique suave ao tato, brilhante e digna de ser apresentada e oferecida a um Rei.

Embora tivesse a certeza de ter visto a viagem de minha mãe até o Trono do Senhor, eu me perguntava se sua alma teria que expiar um tempo no Purgatório... Foi então que o Senhor me disse:

- Por que permites que o demônio semeie dúvidas em tua mente? Confia e ora... Não compreendereis até que estejais deste lado, mas embora tenhais a quase certeza (como revelei a certas almas) de que seus mortos já gozam do Paraíso, continuai rezando por eles, porque desse modo concluireis o que a eles faltava ou aumentareis o que outras almas próximas apresentaram em suas mãos ao se encontrarem Comigo.

Quando disse “Vinde a Mim todos os que estais cansados ou oprimidos...”, também o disse para ti. Muitas coisas que Eu permito ou que envio, às vezes parecem tolas ou injustas. A fé tem que ensinar-vos que Eu planejo tudo para o bem. Lembra que a alma que conserva a paz e a fé na adversidade tem o direito de esperar Meu Amor e seus benefícios.

Como presente especial de Deus tivemos a visita de nosso Assessor Eclesiástico Internacional, um grande amigo e sacerdote muito ungido pelo Senhor, que celebrou junto com meu diretor espiritual uma Missa de cura e perdão, na qual sentimos muito fortemente a Presença viva de Jesus entre nós. Ambos sacerdotesestavam unidos a Jesus no amor e na piedade por esta porção de Seu Povo sofredor.

Minha família e um casal muito querido por nós, a quem sempre deveremos gratidão, participamos da Eucaristia. Quantas coisas há para curar na alma de cada ser humano! Com gratidão pudemos comprovar isso.

 

Capítulo VI
Confissão, morte e transformação

Haviam transcorrido dez dias desde a morte de minha querida mamãe quando uma manhã, ao terminar de fazer minhas primeiras orações do dia, em meu quarto, o Senhor me pediu que permanecesse ali por alguns instantes. Logo, como em um filme, apareceu diante de meus olhos a cena da morte de mamãe.

Volto então ao dia em que minha mãe agonizava, tal como pude ver nesta visão...

Ela estava em sua cama, acabávamos de recostá-la sobre seu lado direito e eu lhe limpava o sangue que perdia pelo nariz. Ela olhou acima de mim, em direção à janela, apertou minha mão e me disse: “Quero estar contigo”.

- Tens medo, mamãezinha? - perguntei-lhe, um tanto angustiada.

- Não, não tenho medo, mas quero estar contigo.

Nesse momento vi umas pessoas que se aproximavam por trás de mim e de minha mãe, do lado direito dela.

Reconheci São José, Santo Antônio de Pádua, Santa Rosa de Lima, São Domingos de Guzmão e São Silvestre, que se colocaram por trás da cabeceira de minha mãe, ao lado de “Leopoldo”; assim se chamava o Anjo da Guarda de minha mãe, um jovenzinho muito bonito que de joelhos parecia estar em oração enquanto com suas mãos acariciava sua cabeça.

Havia outras mulheres e homens, jovens e velhos, eram cerca de quarenta pessoas, todas rezando. Um jovem, vestido com uma alba branca, tinha uma pequena fonte dourada nas mãos. De tempos em tempos punha uma mão nela e tirava fumaça, lançando-a para cima como incenso.

Com isso ele parecia evitar que se aproximassem umas sombras escuras, que se viam como afastadas do quarto, temerosas de se aproximar. O jovem movia os lábios como se rezando algo, depois mudava a pequena fonte de mão e fazia o mesmo com a outra, lançando no ar essa fumaça. Dava voltas ao redor de todos os que rodeavam a cama de minha mãe, por trás de nós. Fiquei espantada de ver tantas pessoas. Então Jesus falou e me disse:

- São seus santos protetores e aquelas almas que ela ajudou a salvar com sua oração e seus sofrimentos, e embora ela não as conhecesse, vieram para acompanhar seu trânsito.

Quando a viramos do outro lado para trocá-la, mamãe disse:

- Já tenho que ir com eles. - enquanto olhava por cima de meu ombro.

Aconselhamo-a a tranqüilizar-se. Cantamos para ela um Salmo e ela foi repetindo o canto. Abriu os olhos quase maravilhada, como se contemplando algo que não podia exprimir e disse:

- Acendam a luz!

Fizemos isso, porém entendendo que ela já não via o que havia na terra, mas que estava mais além. Então, apertando minha mão, disse: Deus Santo!... Deus Santo!... Como se me levasse a rezar, a repetir a jaculatória: Deus Santo, Deus Forte, Deus Imortal, tende piedade de nós e do mundo inteiro!

Ela repetia e repetia a jaculatória enquanto insistia:

- Tenho que ir! - mexia os pés como se fosse andar e dizia: “Não me detenham”... E novamente tornava a dizer: “Deus Santo, Deus Forte... tende piedade de mim e do mundo inteiro”.

As pessoas que a rodeávamos começamos a rezar a oração do Terço da Misericórdia. Mas ao mesmo tempo ela repetia suas próprias orações. Insistia dizendo: “Pai, meu espírito! Já..., já!...” Não recordava a oração completa. Começamos a dizer: “Pai, em Tuas mãos entrego meu espírito...”, entendendo que era isso o que ela queria expressar... Assentindo, ela repetia nossas palavras.

Na visão que tive, observei que para o lado esquerdo de minha mãe, atrás de onde estávamos, começava a chegar outro grupo de gente, e entre eles pude reconhecer a figura de meu pai, uma de minhas avós, uma tia que viveu conosco, e outras pessoas cujos rostos não consegui ver claramente. Estava deslumbrada pelo que contemplava, mas tratava de me concentrar mais em minha mãe.

Diante dela se acendeu uma luz e vi aproximar-se, como se baixando do teto, um coro de anjos que cantava. Formavam duas fileiras de personagens celestes, e ao chegar junto a nós se separaram para rodear o lugar. Tudo era muito solene. Em um momento minha mãe disse, como se dirigindo às pessoas que certamente vinham acompanhar seu trânsito:

- Esperem, primeiro tenho que ver Nossa Senhora!

Meu irmão lhe disse: “Mãezinha, o Senhor está aqui, está te esperando...” Disse isto porque antes minha mãe havia manifestado ter visto o Senhor. E ela retrucou... “ainda devo ver a Virgem...”

Muitas vezes ela havia ouvido que Nossa Senhora recolhia as almas daqueles que esperavam a morte rezando o Rosário.

Passamos para ela o quadro de Nossa Senhora Auxiliadora para que visse a Virgem, pensamos que era isso que queria ver, mas ela olhava por cima do quadro, parecia que já não via as coisas deste mundo, mas tudo o que existe além... Logo disse: “Aí A vejo, aí está... dêem lugar à Mãezinha! Devemos pedir perdão a Nossa Senhora...”

 

O terno abraço da Mãe

Nesse instante vi que Nossa Senhora descia do céu e, suspensa no ar, ficou aos pés de minha mãe; vi que estendia as mãos em direção a minha mãe. Em um dos braços, a Virgem Maria tinha um vestido branco. Minha mãe estendeu a mão como para receber algo ou tocar algo, observei como Nossa Senhora lhe tomou a mão. Mamãe perdeu os sentidos nesse momento, por menos de um minuto, e expirou.

Quando sua cabeção ficou quieta sobre minha mão, pois eu a estava sustendo, pensei que toda a visão desapareceria, mas imediatamente contemplei o instante em que se ergueu a alma de minha mãe, separando-se de seu corpo…

Dirigiu-se até Nossa senhora, que nesse momento lhe apresentou o traje branco com as duas mãos, como se medindo-o por cima do camisão que ela vestia. Imediatamente apareceu vestida com esse traje... Nossa Senhora tinha muita doçura em Sua expressão, sorria e tomou minha mãe abraçando-a. Ela, por sua vez, fez o mesmo apoiando sua cabeça no ombro da Virgem Maria e subiram juntas com todo o séquito de personagens que acompanhavam a cena.

O quarto ficou quase vazio. São José nos dirigiu um olhar, tocou a mão de São Silvestre e este nos deu a bênção a todos. Deu meia volta e saiu, seguido por São José.

Jesus me disse muito solenemente:

- Conta ao mundo, para que os homens valorizem a Graça que é estar junto a um moribundo que parte auxiliado pelo céu. O recolhimento deve ser absoluto, pois parte do céu se encontra nesse recinto. É o momento em que Deus visita esse lugar.

Concluída a visão, ajoelhei-me para agradecer a Deus, chorando, por nos ter presenteado com toda essa graça, e por ter me permitido ver essa maravilha que hoje posso relatar ao mundo, para que se dê conta da importância e do dever que temos, de ajudar a nossos moribundos e a todo moribundo, para que iniciem felizes a viagem para a eternidade do Amor de Deus.

 

Capítulo VII
Um chamado urgente:
a assistência ao moribundo

Alguns dias depois, eu estava rezando o Terço da Misericórdia quando ouvi a voz do Senhor que me dizia:

- Preste atenção ao que irás ver, não temas, mas é necessário que vejas. Nesse momento tive a visão de um quarto em um hospital. Ali se encontrava um senhor, entre 50 e 65 anos (não podia estimar melhor sua idade porque estava doente e muito consumido).

Havia várias pessoas junto dele, umas choravam mas todas esperavam sua morte. Escutavam-se prantos desesperados, o homem se contorcia de dor, sabia que estava morrendo, percebia-se que estava irritado, renegava enquanto dizia:

- Como vou morrer?...! Como Deus vai permitir que eu morra?... Façam algo... não quero morrer!

Enquanto isso, agitava o corpo bruscamente. Rebelava-se diante da iminência da morte. Percebia-se o conflito, a tortura, a falta de paz. E me impressionava que as pessoas que estavam com ele não levavam de maneira alguma a paz para esta alma, ninguém rezava.

No corredor externo reconheci um pequeno pátio em que algumas pessoas conversavam e riam, algumas fumavam e bebiam, absolutamente alheias ao sublime momento que vivia, em conflito, esse doente tão próximo. O cenário era parecido com qualquer evento social cotidiano.

Então vi chegar uma religiosa e o Senhor me disse:

- É uma enviada de Minha Mãe.

Pude ver então Nossa Senhora que, à distância, contemplava a cena, com as mãos postas rezando, enquanto lhe escorriam lágrimas pelo rosto. Havia um anjo ao lado do doente com um semblante muito triste, com uma mão cobria o rosto e com a outra tocava o doente. Logo o anjo se levantou e com as mãos tratava de afastar muitas sombras que se aproximavam do homem. Estas formas pareciam desfiguradas com cabeças de veados, ursos, cavalos, não podia ver com mais nitidez porque eram sombras.

Quando a religiosa entrou no quarto, aproximou-se da cama... Tomou a mão do moribundo. Tentou dar-lhe uma estampa, dizendo-lhe algo. O homem ergueu a mão em sinal de recusa, a religiosa insistiu outra vez para aproximar a estampa, mas, com o pouco fôlego que lhe restava, o moribundo gesticulava, negando essa aproximação. Gritava, irritado. A religiosa saiu muito triste.

No corredor, tomou seu terço e começou a rezar. As pessoas que a viam, sorriam de maneira gozadora, não consideravam minimamente a importância que tinha sua oração nesse momento delicado. Ela os convidava a rezar mas os olhos e as expressões manifestavam sua clara recusa.

Em poucos minutos o homem faleceu, e pude ver que quando sua alma deixava o corpo, todas essas sombras saltaram sobre ele, cada uma o disputava, pareciam feras, lobos, cachorros que esquartejavam uma presa. Imediatamente o anjo se pôs diante deles e levantando a mão, ordenou:

- Alto! Soltai-o, primeiro deve apresentar-se diante do trono de Deus para ser julgado!

Algumas pessoas se puseram a chorar ao redor do defunto de maneira desesperada, ou melhor, histérica.

Compreendi então a diferença que existe quando despedimos uma alma que está em paz e parte com a esperança na Misericórdia de Deus.

 

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